Thursday, February 28, 2008

winter sunrise

Sento-me imóvel em frente a ti. Na esperança vã que o teu olhar verde me encontre. Passam-se horas, ou talvez segundos que me parecem longos, demasiado longos. Acordas de um sono imenso, com cara de felicidade reflectida num sorriso único. Percorro toda a sala com o olhar sem mexer sequer um fio de cabelo. Vejo o velho aparador de madeira negra com o adocicado cheiro da cera, o gira-discos vermelho que já não toca músicas tristes francesas, e por fim, o sofá de pele castanha gasta onde te deitaste há tanto tempo que já nem sei.

Sentas-te e procuras-me o olhar, e assim ficamos sem articular uma palavra. Estico o braço tentando alcançar-te a mão. Como se deste movimento dependessem vidas ou até mesmo a própria continuidade da humanidade. Ou, pelos menos nós. Como se dependêssemos disto para respirar.

Ao fundo da sala, a janela aberta de par em par deixa entrar por entre as cortinas translúcidas, o ar impregnado de perfumes do campo que preenchem todo o espaço que nos rodeia. Lá fora, o sol desponta com pressas de crescer, dourando tudo o que envolve.

Toco-te a pele morna, os nossos dedos entrelaçam-se e assim ficam como um todo. Seria agora que as palavras se soltassem umas atrás das outras, mas não. Sabemos que não é necessário, há silêncios que expressam mais que rios de palavras.
Assim ficamos, até sempre.

i am you

1 comment:

Susana said...

Tens um dom. O de transformar palavras em emoções...
Beijo grande