Tuesday, October 20, 2009

1st rain


Num repente surgem a imagem de velas, de vinho, de palavras secretas, de um rio cinzento-chumbo que se arrasta.
A chuva traz isto. A vontade de não-estar, de ir e não voltar. De mais velas. Mais vinho e livros carregados das nossas palavras. Só nossas.

Enquanto se fotografa tem-se na alma estas palavras

Wednesday, September 30, 2009

Lullaby

Always and forever
We'll be free
Always and forever
Be with me
We'll have love a'plenty
We'll have joys outnumbered
We'll share perfect moments

You and me

Always and forever
You will see
Always and forever
Just be with me
We'll have love a'plenty
We'll have joys outnumbered
We'll share perfect moments
You and me

You and me


By Lamb

Thursday, September 24, 2009

No domingo passado agradeceu-se a negligência de um profissional da construção civil, graças a este rumou-se a Norte, mais propriamente à Vila Morena para repasto em companhia mais-que-perfeita. Migas gatas e lombo de vitela, iguarias apreciadas com conversas e puré de maçã para quem contempla um mundo ainda tão novo. Depois, passeios a fazer lembrar outros caminhos e a sensação que é sina ter de vaguear sem rumo, olhar um mar que não é o das ostras mas sentir o prazer de apenas estar.

Já com o sol longe e numa esplanada sem rosto, o querer ouvir o que soube tão bem e ter por certo que por mais que se expliquem sentimentos estes conseguem ser expressos em tão poucas e simples palavras.

Na estrada com a noite alta, ter de ver a outra parte virar e aí sentir verdadeiramente que a vida por vezes é injusta, e que se existisse uma força maior, esta faria com que os caminhos que se dividem se tornassem apenas num só.

Friday, September 18, 2009



Fim-de-semana cheio de tudo. Carregado de vida, de sensações e sentimentos. De acordar na urbe e sentir o pulso da noite intensa anterior. De levitar sobre calçadas gastas e partir para um paraíso já ali ao lado. Onde o silêncio da noite trouxe uma manhã repleta de imagens que não se apagam. Pede-se que se repitam tantas e quantas vezes se quiser.

Monday, September 7, 2009






















Por Tudo e por Nada. Pela força que gera a vontade imensa de apenas querer estar. Pelas estrelas contadas. Pelos pés na areia quente com o empenho todo e mais algum que o tempo parasse e ali se ficasse até decidir quando ir. Na cumplicidade de quem anda lado a lado, e no roçar de um braço nu como se aquele fosse um momento único. Pelos risos e sorrisos. Aos molhes. Pela força daquele mar que leva e traz a saudade que só acaba quando se sorvem ostras na companhia certa, onde o que rodeia deixa de fazer sentido ou simplesmente inexiste. Às piadas, ao achar tanta piada quanto na alma couber. E a um Querer Maior. Ao que é pele, sal, areia, sol. A tudo o que assalta a memória, e faz ansiar por que o tempo não passe, mas que voe, que se suma, até à hora em que simplesmente os olhos se encontrem e todos os sentidos despertem para que se peça ao mundo que pare de rodar, por respeito, a duas almas que se querem encontrar.









i am you

Wednesday, July 15, 2009

leave(s)

Parte-se de um novo porto, assim que a tormenta abandona os céus.

Salta-se a medo, esperando que a queda seja suave.

Love will tear us apart já exorcizava Ian Curtis, quando a epilepsia o consentia.

E continua-se a incessante busca da tão afamada felicidade.

No meio do caos recolhem-se as partes molestadas e juntam-se, esperando que encaixem e ganhem sentido.

Seria suposto ser tudo mais simples, apenas isso. Simples.

Sunday, July 12, 2009

red

Pediste-me para parar, que já não aguentavas. Relembrei-te que ainda só tinha começado, que o melhor ainda estava para vir. Ergues os teus belíssimos olhos verdes ao tecto e neles vejo o reflexo da lâmpada que teima em falhar constantemente. Cospes-me na cara. Agradeço-te lambendo os restos de saliva que a minha língua alcança. Aperto-te mais um pouco o garrote que tens no pescoço. Tentas gritar. É em vão o teu esforço. Da tua boca de lábios finos mas vermelhos sai um chiar, que mais parece o som daquela brincadeira que fazia com os papeis dos rebuçados. Brotam lágrimas dos teus olhos que correm para o pescoço. As veias de tão dilatadas, deixam-me medir-te as pulsações. Afrouxo agora o garrote. Não quero perder-te já. Respiras com alguma dificuldade. Chamas-me nomes feios. Nem sabes o quanto gosto disso. Continua. Encosto os meus lábios aos teus e num repente arrancas-me uma boa parte do lábio superior. Sinto o prazer da dor por todo o corpo, num só arrepio. O sangue jorra agora directamente para a tua cara. Suponho agora que me vejas de vermelho. Não dizias que era a tua cor preferida de lingerie? Agora sou toda eu vermelho, meu caro. Acabaram-se as noitadas, acabou-se o putedo, porque tu nem qualidades para arranjares amantes tinhas. Aperto agora o garrote com todas as minhas forças. Vejo os teus belíssimos olhos verdes suplicarem por perdão. É tarde. Fixas então a luz da lâmpada que por fim se apaga para não voltar a acender. Sussurro-te ao ouvido: amo-te muito.

Thursday, July 9, 2009

living dead

Avançam os pés sujos descalços até ao final do balcão. Pede-me um bolo, que tem fome, anuo e digo-lhe que escolha. Pergunto-lhe de onde é. Responde-me que da Roménia. Na boca, entre bocados de pata de veado e dentes de ouro brincam palavras num português pobre. Diz-me que tem cinco filhos. Não lhe perguntei nada. Que estão na Roménia, mas que vêm para cá. Pergunto-lhe a idade. Trinta e um. Reparo nos olhos. De um castanho muito escuro, a roçar o negro. Mas o que me intriga não é a cor. É a falta de brilho. Imagino cabeças de um qualquer animal, numa banca. Perfiladas para que se escolha aquela que mais agrada. Onde a humidade natural dos olhos deu lugar à distância vítrea de quem apenas deixou ali a cabeça para ser vendida.

Monday, June 15, 2009

Pele




A brutalidade visual de um pôr-do-sol.

Friday, June 5, 2009

Nº43

Olhava-se em redor e apenas se vislumbravam sombras de braços compridos que amaciavam o chão coberto de alcatifa surrada.

Entre duas portas lá estava ele. Estático. No silêncio daquela noite perguntava-se qual delas abrir e entrar. Esperava-o algo já conhecido, quase como uma segunda pele. Sabia-lhe os cheiros e a forma como passava a mão pelo rosto.

Há já tanto tempo e ainda como se fosse ontem. Como se fosse hoje.

Thursday, June 4, 2009

Mercado

Caricato descobrir que afinal na vida tudo não passa de uma lei de oferta e procura. Oferecem-se promessas e procuram-se sonhos. De perfeição.
É capaz de ser verdade, ou talvez não.

Monday, June 1, 2009

Auto disfocus (egocentric trip) #1


Switch off

Wednesday, May 27, 2009

Life intersections

Encontrei-o há algum tempo. Meia dúzia de palavras trocadas e pouco mais que o restaurante esperava. Senti algo que me incomodou desde aí, mas como tempo corre e teima em não parar, os pensamentos fundiram-se noutros que a vida leva pressa.

Apanhei uma conversa que não me era dirigida. “que diz, que disse, que foi, não sei, só sei...” com raiva daquilo, mais ainda por ser atroz tudo o que pudesse ser verdade.

A vida, essa que por vezes embala e serena, também traz penas de doença a alguns que a vivem com ganas de a viver.

“Tudo é um jogo.” Disse-me certa noite, numa conversa sobre posses e possessões.

Tudo é um jogo de regras ténues a beijar abismos que se abrem atrás de um olhar.


i am you

Tuesday, April 28, 2009

?

Entre aulas e trabalho. Entre exames de rotina e heranças hereditárias cardíacas. Entre tanto e ao mesmo tempo tão pouco. Mais um 25 de Abril.

Nasci um ano antes desta liberdade, portanto não conheci outro regime a não ser este.

Tive um avô comunista. Que via no Álvaro Cunhal um líder. Cheguei a ir com ele ao avante ainda no coração de Lisboa. Lembro-me de o ouvir gritar a plenos pulmões “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais!”

O outro avô era do CDS. Do tempo do Freitas. Homem que se levantava às 4 da manhã praticamente todos os dias para rumar ao talho que era seu.

Durante os verões de muitos anos, em grandes sardinhadas, na ilha que era minha, estes dois homens sentaram-se lado a lado. Comeram e beberam, riram, viveram.

Esta é a liberdade.

Friday, February 6, 2009

drug of the Nation


i am you

Thursday, February 5, 2009

Lost #3


i am you

Tuesday, January 13, 2009

before the storm



No olhar perdido de quem nada vê. Na mente assolada por fantasmas e demónios. Nas unhas corroídas por cigarros e dentes amarelos. Torna-se gigante. Gigante nos seus próprios medos.

i am you

Monday, December 22, 2008

Christmas Tandoori Chicken

Dois indianos discutem. De dentro do restaurante emana um perfume carregado a caril. É quase noite de inverno. Paro um pouco à frente e finjo ver uma montra. Um deles sobe o tom e gesticula bastante. O outro perde a razão e oferece-lhe uma sonora chapada. Quedam-se estáticos, de olhos colados um no outro. Pela rua ouve-se um arrastado e monocórdico Let it snow. Não há mais ninguém ali para além daqueles dois. Imagino o esbofeteado a sacar de um punhal de prata, espetando-o no meio do peito do outro e escalando-o até ao fundo da barriga. Depois limpa a lâmina na fralda da camisa e voa pela rua escura. O outro, confronta-se com o espanto e com o sangue que brota do interior. Os cheiros misturam-se agora. Enjoativo.

O esbofeteado começa-se a rir, primeiro baixo e devagar, depois alarvemente contagiando o outro. Não param, conseguem mesmo abafar o som da irritante música de Natal. Abraçam-se. Entram restaurante adentro.

Abandono a montra e sigo.

The fire is slowly dying
And, my dear, we're still good-bye-ing
But as long as you love me so
Let it snow, let it snow, let it snow


i am you

Friday, November 28, 2008

lost #2


i am you

Thursday, October 23, 2008

Autumn scene


i am you

Tuesday, September 30, 2008

lost


i am you

Wednesday, September 24, 2008

ghost sleeper



Sobre a antiga cómoda de pau-preto de pés carcomidos, pousa uma virgem Maria sem mãos. Tem no olhar o peso de todo o sofrimento consentido neste mundo. Aos pés da cama dorme um cão que já foi novo. O homem levanta-se e enfrenta o espelho, procurando o reflexo do olhar. No canto inferior do espelho vêem-se as costas da virgem. O homem interroga-se por este facto. Ao canto um par de velhos sapatos castanhos de pele jaz, à espera de uma última saída. Talvez a última. Por baixo da base de massa enfeitada de pombas mal pintadas que sustentam a virgem, emparelham-se duas cartas. Uma conta a pagar e a outra com um remetente já esquecido há muitos anos. Noutra vida. De ar húmido pesado e águas cálidas. De gins à sombra de palmeiras curvadas sobre a marginal. De o olhar dengoso de mulatas atrevidas. De fatos de linho de Goa com cheiro a cânfora. De músicas americanas ao final da tarde com o sol a pôr-se a oeste. Noutra vida.

i am you

Monday, September 22, 2008

Autumn leaves

Deitada num banco de jardim vermelho de tinta estalada, a mulher louca dorme. Com as pernas caídas e com a cabeça sobre o braço. Na outra mão, um maço de águia. Mexe os lábios numa ladainha cantada. Apuro o ouvido e tento compreender o que lhe sai da boca. Acima dela uma árvore meia despida anuncia já o Outono que se faz notar no chão entre as folhas amarelas e laranja. Uma folha cai-lhe na cara de boca-sem-dentes e cabelos imundos queimados pelo sol. Solta o maço sobre o peito e agarra a folha observando-a. Naquele momento um sorriso esgarça-se. Num qualquer fim-de-semana de um ano bissexto, a qualquer hora de um dia sem nome, esta folha tinha de cair sobre o peito de uma mulher louca.

i am you

Saturday, September 20, 2008

Apontamento visual #1



i am you

Apontamento visual #2



i am you

Apontamento visual #3



i am you

Wednesday, July 9, 2008

Summer ice creams

Na mesa de esplanada em frente à minha estão sentadas três mulheres. A mais velha é particularmente feia. Cabelo oxigenado ralo, de lábios extremamente finos de onde o batom vermelho vivo sobra, na tentativa vã de parecerem maiores os finos fios de carne. Nos dedos moram anéis de formas várias entre o dourado e a prata, e no pescoço de peles despregadas, fios de ouro e um terço branco de plástico. Ri, fala e gesticula, conta à vizinha de mesa a novela que acabou de ver. Entre a conversa das duas está a mais nova. De cabelo preto farto, recostada na cadeira branca de plástico, parece nada ouvir. Os seus dedos encaracolam ainda mais uma melena por cima do ombro direito. Olha para cima, para os lados, para todo o lado, menos para elas. Passa a mão para o queixo, onde tenta espremer pontos negros que limpa nas calças justas e brancas. Fixa então o olhar no homem. Adquirem luz os olhos castanhos-escuros grandes. Ele não nota. Na azáfama de levantar chávenas de café, pratos pequenos lascados e garrafas de cerveja, nem repara na existência dela. Quando retorna ao interior do café, ela faz questão de ir pagar ao balcão, levantando-se de pronto, ajeitando a blusa vermelha ruça e endireitando as costas fazendo espetar o peito. Passa por mim e sinto-lhe o perfume barato. Imagino os dois, a passear junto à Ria, comendo gelados de bolas coloridos e ele com a mão sobre o ombro a brincar com a melena dela.

i am you

Tuesday, July 8, 2008

Empata.

No meio de um mar de pernas, a menina sentada no chão chora baixinho. Numa ladainha quase imperceptível, ali está ela, entre joelhos e canelas com metade de uma bolacha Maria numa mão e a outra agarrada à túnica da fêmea. Tenho a sensação de que aquela menina é invisível, que ninguém a vê. Que meramente ali se encontra por acidente. Entre conversas e risos, ali está ela, o ser mais pequeno e frágil do mundo, à espera de um colo, que tarda a chegar ou talvez nem chegue. O calor sufocante faz com que os olhos se cerrem para aclarar a visão. Encontro-me ao mesmo nível daquela menina, sentado no chão. As vozes que me rodeiam ali falam do almoço que já foi, de sangrias e de whisky com gelo. Fala alto o álcool quando ainda corre nas veias. Desfoco os meus ouvidos dali e encontro-me no olhar perdido daquela criança que exaspera agora por atenção. O choro cresceu, a bolacha já não está na mão e dos olhos já inchados não param de nascer pequenas lágrimas que descem pelas bochechas rosadas. Num repente, a fêmea puxa-lhe um braço e com a outra garra desfere uma bofetada numa das bochechas rosadas. O choro amansa talvez à custa da dor, a menina encontra no chão o resto da Maria e volta a saboreá-la juntamente com o ranho que lhe sai do nariz. A fêmea fala de lojas e saídas à noite, de jantares e de praia novamente no dia a seguir. Sobra só aquela menina. Que não deveria estar ali.

i am you

Wednesday, June 25, 2008

Espelhos de Almas

Nos sulcos fincados na pele, nota-se a passagem dos anos. No olhar, a vida que já foi maior, que se perde entre os dias. Todos os dias. Nas fotografias abaixo tentei captar a essência dos olhares, embora numa delas nem os olhos do “objecto” fotografado se vislumbrem, penso que essa ausência, não seja causa digna de relevo, porque aquele olhar continuará numa busca incessante de algo que já não volta. A vida que já não volta.

i am you

Wednesday, June 4, 2008

um Sol de Outono numa manhã de Julho

Arredo uma cadeira e sento-me. E espero que todo este tempo passe. Este punhado de horas que separa a vida do resto. Todo o resto que faz ter medo. Tenho oitenta e sete anos. Da pequena janela de madeira pintalgada de restos de branco onde os bichos-da-madeira já não moram, vislumbro o pequeno pátio que é banhado pelo sol forte dos primeiros dias de Verão. Não tarda mesmo nada para que os risos e gritos dos garotos que por aqui brincam, me preencham os ouvidos já moucos por tantos anos a ouvir tantas e tantas palavras. De raiva, de amor, de ódios, de arrependimentos. Foram muitas as palavras que por estes ouvidos moucos entraram e se alojaram nestes parcos cabelos brancos que restam no cimo da minha cabeça.

No fundo desta sala moram as fotografias daqueles que já foram. Uns porque chegou a hora, outros porque tinham dinheiro a ganhar. Lá fora. Onde de tempos a tempos chega uma imagem de mais um aniversário de um neto, ou de um jantar de Natal sem bacalhau. A última que chegou foi a da nora e do filho encostados ao novo carro que diz nas costas: “talvez para o ano a gente aí vá”.

Haverá para aí uns quatro ou cinco anos que é sempre para o ano…

Cansei-me desta janela, da espera e das malditas fotografias que me puxam as lágrimas aos olhos. Peço por tudo que me leve. Que já vi todas as cores e ouvi todas as palavras. Que já vivi tanto mesmo sem mesmo ter saído aqui do pátio. Minto. Fui a Fátima duas ou três vezes. Pedir por eles. Por aqueles lá estão fora porque tinham dinheiro a ganhar.

Talvez tenham de vir este ano.

i am you

Tuesday, May 6, 2008

freedom?

Partira sem deixar rasto. Nem bilhete, nem saudade. Ela sabia perfeitamente que aquele nunca mais o veria. Tinha sido fruto de um homem difícil de quem nunca gostara. O parto, esse fora doloroso. Não tinha sido o primeiro, nem fora o último, mas isso, ela ainda desconhecia. Desde essa manhã, e em todas as outras que se seguiram prostrava-se à janela do 4º frente do lote F daquele bairro decrépito e nauseabundo, que apenas deixava vislumbrar o fim da rua por onde ele tinha seguido.

Quinze anos. Projecto inacabado de homem com manias de saber. Deixara a casa para calcorrear as ruas de uma cidade que não era sua. Esmola aqui e ali para uma sandes, um desvio de uma mercearia de travessa, uma beata fumada apanhada do chão e assim lá se ia vivendo sem saber se a liberdade era doce ou amarga. Quando as estrelas e, por vezes, a lua gorda se punham no céu deitava-se sobre uns cartões mijados por gatos pardos, e aí sonhava com a voz morna trauteando modas da terra quente, daquela que o parira ao mesmo tempo que lhe afagava a cabeça e dizia ao ouvido que era bonito.

Sentira o primeiro pontapé na boca do estômago, tirando-lhe da cara um esgar de dor. À sua volta seis ou sete pares de botas pretas apresentavam uma dança macabra que lhe iam desfazendo partes do corpo à medida que a violência infligida era proporcional à dor. Da boca saltavam dentes, sentira as costelas estalarem, e num último momento de lucidez lembrara-se dos olhos negros da mãe, tal como da pele preta e do cheiro a moamba que saía do 4º frente do lote F nos almoços de domingo.

i am you

Tuesday, March 18, 2008

Lisboa re-revisited

Lisboa é uma cidade velha, carregada de história e estórias. Sente-se o carisma quando nela se deambula. As fotografias abaixo não são mais do que apontamentos visuais de uma cidade que todos os dias nasce e jaz à beira Tejo.

i am you

Lisboa re-revisited #1


16/03

i am you

Lisboa re-revisited #2



16/03

i am you

Lisboa re-revisited #3


16/03

i am you

Lisboa re-revisited #4


16/03

i am you

Lisboa re-revisited #5


16/03

i am you

Lisboa re-revisited #6


16/03

i am you

Lisboa re-revisited #7


16/03

i am you

Nós


16/03

To S.

i am you

Wednesday, March 12, 2008

homeless dreams

Quase morto, penso que estará o homem que exactamente a três passos de mim jaz no chão.
O sol da manhã que lhe serve de manto, dá-lhe o conforto e o pacote de tinto ao lado abonou o cansaço. Questiono-me no que aquele homem sonha e se sonha. Se sonharão as pessoas que dormem com almofadas de restos de cartão. Reparo que já me encontro ali há uns pares de minutos. Move-se então num gemido surdo, como se de uma queixa se tratasse, vira-se para outro lado. Talvez incomodado pela luz, ou pela vergonha de ter todas as camas de pedra que a cidade lhe der.
Injusto.

i am you

Tuesday, March 4, 2008

o velho que tudo sabe

De olhos nebulosos postos na prata que cobria a ria, o velho deixava queimar entre os dedos um cigarro que a tempos levava aos lábios. O final daquela tarde transpirava tempo quente e húmido que só o Levante traz. No céu, gaivotas gritavam umas com as outras como se de comadres se tratassem. O resto de sol que se escondia a poente pintava o céu já azul-escuro com lâminas de laranja vivo.

Aproximo-me. Encosto-me aos ferros que ladeiam o porto e ali fico. Lado a lado. Pergunto-lhe quando acabará o Levante. Olha-me de soslaio e pede-me um cigarro que saco do maço e lhe passo para as mãos. Tira do casaco de xadrez roçado uma caixa de fósforos grande com marcas de gordura. Puxa então de um e fá-lo roçar na lixa, acendendo-o à segunda. A sua mão de pele encarquilhada e enegrecida pelo tempo transforma-se em concha protegendo o fogo que acende o cigarro. Puxa grandes tragos, exalando o fumo pelas narinas.

Diz-me então que acabará amanhã ou daqui a mais três dias. Pergunto-lhe como sabe. Explica-me que foi assim que o pai o ensinou, que nunca lhe perguntou o porquê. É assim e mais nada.
Afasto-me e sinto que me basta esta explicação. Que ainda haja coisas que não se expliquem.

i am you

Thursday, February 28, 2008

winter sunrise

Sento-me imóvel em frente a ti. Na esperança vã que o teu olhar verde me encontre. Passam-se horas, ou talvez segundos que me parecem longos, demasiado longos. Acordas de um sono imenso, com cara de felicidade reflectida num sorriso único. Percorro toda a sala com o olhar sem mexer sequer um fio de cabelo. Vejo o velho aparador de madeira negra com o adocicado cheiro da cera, o gira-discos vermelho que já não toca músicas tristes francesas, e por fim, o sofá de pele castanha gasta onde te deitaste há tanto tempo que já nem sei.

Sentas-te e procuras-me o olhar, e assim ficamos sem articular uma palavra. Estico o braço tentando alcançar-te a mão. Como se deste movimento dependessem vidas ou até mesmo a própria continuidade da humanidade. Ou, pelos menos nós. Como se dependêssemos disto para respirar.

Ao fundo da sala, a janela aberta de par em par deixa entrar por entre as cortinas translúcidas, o ar impregnado de perfumes do campo que preenchem todo o espaço que nos rodeia. Lá fora, o sol desponta com pressas de crescer, dourando tudo o que envolve.

Toco-te a pele morna, os nossos dedos entrelaçam-se e assim ficam como um todo. Seria agora que as palavras se soltassem umas atrás das outras, mas não. Sabemos que não é necessário, há silêncios que expressam mais que rios de palavras.
Assim ficamos, até sempre.

i am you

Friday, February 22, 2008

twist and turn

No alto do velho prédio mais cinzento do que o céu daquela manhã invernosa, ela abraça-se e assim se mantém não dando pela velocidade vertiginosa dos segundos que caiam um após outro do ponteiro maior do seu relógio. Abaixo, o rio teima em entrar-lhe pela alma adentro, a seus olhos a massa de água raivosa e escura que tudo arrasta, segue o seu rumo até ao grande mar, com que ela sonhou a sua vida inteira. Como se o grande mar fosse a porta para o outro lado. Pelas suas narinas o cheiro próprio da cidade provoca-lhe saudades da meninice, de joelhos esfolados, de papo-secos com manteiga e leite quente com chocolate.
Ele, arrasta os sapatos cansados na calçada gasta da rua, com os olhos colados ao chão parecendo contar as pedras irregulares que os anos teimaram em polir tornando-as escorregadias. Pára junto à porta verde de ferro e vidros partidos do prédio onde a vida já fez mais sentido. Sobe degrau após degrau, sentido por baixo de si o ranger da madeira velha e podre daqueles degraus onde há alguns anos em vez de os tocar, voava sobre eles ouvindo os gritos da velha avó, para ter cuidado, que se matava um dia, que quando o pai da fábrica chegasse lhe dava uma sova.
Sobre as cabeças deles o céu que ameaçava ruir com o peso das nuvens carregadas, começa agora a abrir lentamente. Ele aproxima-se dela e desajeitadamente ata-a com os seus braços pela cintura. Ela, sente o doce cheiro da água colónia de muitos anos e deixa cair a cabeça para trás aninhando-se no peito dele. Neste preciso momento tudo o que os rodeia ganha luz, novas cores, brilhos. Do céu, raios de sol rompem as nuvens e entram pelo rio trazendo de novo o azul que no fundo tinha ficado.
- Para o grande mar, vamos. Sussurra-lhe ele ao ouvido.



i am you

Saturday, February 16, 2008

Arrifana - Costa Vicentina



i am you

Montes Clérigos - Costa Vicentina



i am you

Montes Clérigos - Costa Vicentina



i am you

Thursday, January 10, 2008

South Highway #1


stranges concepts of happiness

i am you

South Highway #2


in a road to nowhere

i am you

South Highway #3


little angels playing inside empty hearts

i am you

Friday, January 4, 2008

Tenho a sensação de ter perdido algo. Qualquer coisa que me faz falta. Que dificilmente encontrarei novamente. Será que existe secção de perdidos & achados na vida? Vejo-me diante de um balcão poeirento e atrás de uns óculos quadrados de tartaruga, a velha funcionária pergunta:
- E o local, recorda-se?
Anuo com a cabeça, ao mesmo tempo que da minha boca sai: Foi lá atrás.
- Horas?
-Como?
- A que horas a perdeu? Fazendo olhos pequeninos e contorcendo o lábio superior.
- Não me recordo. Talvez ontem ou a semana passada. Não me recordo…
Baixando a cabeça branca de carrapito ao alto a velha vira-me as costas mastigando palavras surdas. Afasto-me dali e de mãos nos bolsos encaro a rua que é atravessada pelos últimos raios de luz do dia. Ao fundo, vislumbro uma silhueta que os meus olhos conhecem. Acelero o passo. Descubro-a. Quem procura sempre encontra.

i am you

Thursday, December 27, 2007

Reencontro-me nas palavras escritas dos outros. Mais do que em monólogos de grupo. Passamos demasiado tempo em extensos e pesarosos monólogos com os outros. Aprende-se mais em meia dúzia de caracteres impressos do que em inenarráveis horas de conversas, mas o prazer de cuspirmos palavra atrás palavra é quase tão viciante, como os inquietantes jogos de sedução que praticamos ao longo da vida. Jogar palavras fora é quase doentio. É como se, por vezes, fosse inevitável despender todos os agrupamentos de letras que se formam nas mentes de todos nós, e de enxurrada se soltassem num mar por vezes sereno, ou noutras, num turbilhão de fervores e raivas que queimam e ferem. Ou simplesmente omitir. Tudo.
Vou até ali ter com amigos e gozar do prazer de jogar palavras fora.

i am you

Tuesday, December 18, 2007

Percorreram-se cerca de 1500 km entre a manhã de ontem e hoje até ao meio-dia.
Objectivos cumpridos. timings alcançados. Apenas a sensação de não ter visto nada para além de estrada e mais estrada. Alguém conhecido pergunta: "Fotografaste muito?". Digo que não, que nem por isso. Poderia ter fotografado a Serra Nevada, paraíso incontornável de gentes que apreciam a neve e suas subtilezas, mais que não seja para dizerem que por lá estiveram a esquiar. Não deixa de ser irónico a quantidade de pessoas que sabem esquiar em Portugal. País dotadissímo de condições para a prática de desportos de inverno, então a Serra do Caldeirão, um portento. Não tirei uma única fotografia. Ontem, aquando da chegada ao meu destino, soube que do outro lado de um imenso morro se encontrava o Mediterrâneo, fiquei com pena de não o ver, mais do que a Serra Nevada. Espero voltar a Granada. Essa do que vislumbrei parece-me de confiança. E eu que ambicionva a Serra, troco-a agora pela cidade se dela abeira. Granada parece-me de confiança, sem truques ou maquilhagens para criar ilusões. Hei-de lá ir.

i am you

Thursday, December 13, 2007

Encerra-se o ciclo exactamente no sítio onde tudo começou. Que assim seja. E que hoje sejam testemunhas os mesmos astros que ali estiveram no passado.

i am you

Wednesday, December 12, 2007

Talvez por tudo ou por nada. Talvez o vento tenha mudado. Talvez seja isso. Momentos de calmaria no constante rebuliço da vida. "Só se dobra uma vez", foi-me dito em tempos passados. Reconheço que sim. Que se aprende. Mais vale quebrar.

i am you

Wednesday, December 5, 2007

small town ghosts #1



i am you

small town ghosts #2



i am you

small town ghosts #3



i am you

small town ghosts #4



i am you

Friday, September 14, 2007

Descarga

Homens e mulheres na azáfama de descarregar barcos carregados de peixe. Foi ontem. As fotografias que se seguem não tentam ser o retrato desse buliço, mas captar alguns momentos desta actividade.

i am you

Descarga #1



i am you

Descarga #2



i am you

Descarga #3



i am you

Descarga #4



i am you

Descarga #5



i am you

Tuesday, August 21, 2007

Dia de Pesca

As fotografias abaixo intituladas Dia de Pesca foram captadas no passado dia 16 de Agosto de 2007. Ao largo da Fuzeta.

Dia de Pesca #01


i am you

Dia de Pesca #02


i am you

Dia de Pesca #03


i am you

Dia de Pesca #04


i am you

Dia de Pesca #05


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Dia de Pesca #06


i am you

Dia de Pesca #07


i am you

Dia de Pesca #08


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Dia de Pesca #09


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Dia de Pesca #10


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Dia de Pesca #11


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Dia de Pesca #12


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Dia de Pesca #13


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Dia de Pesca #14


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Dia de Pesca #15


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Dia de Pesca #16


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Tuesday, July 31, 2007

Sleepless



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What´s new pussycat?



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Refúgio



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X ray



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Tuesday, July 3, 2007

Nausea

As imagens seguintes são resultado de manipulação digital tendo por base fotografias captadas no mês de Maio deste ano.
O propósito destas seria a criação de um cartaz publicitando um exercicio teatral.
São as próprias actrizes que ilustram estas imagens.

The following images are the result of digital manipulation based on pictures took in the month of May of the current year.

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Nausea #1



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Nausea #2



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Nausea #3



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Nausea #4



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Monday, June 25, 2007

PowerFlower - Manipulação Digital

As imagens abaixo são o resultado de manipulação digital tendo como base fotografias captadas no inicio do corrente ano. Estas estiveram em exposição aberta ao público no bar Catita & Companhia, na Cidade de Olhão, Algarve, Portugal em fevereiro de 2007.

The images below are the result of digital manipulation having as base pictures took in the beginning of the current year. These images had been in an open exposition in the bar Catita & Company, in the City of Olhão, Algarve, Portugal in February of 2007.

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PowerFlower #10


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PowerFlower #9


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PowerFlower #8


i am you

PowerFlower #7


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PowerFlower #6


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PowerFlower #5


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PowerFlower #4


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PowerFlower #3


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PowerFlower #2


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PowerFlower #1


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Friday, May 18, 2007

Fantasmas


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Armona-Olhão
01/07

Thursday, May 17, 2007

Poderes




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Olhão
02/06

Wednesday, May 16, 2007

Chaos


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Olhão
05/07

Tuesday, May 15, 2007

Solidão II


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Lisboa
01/07

Monday, May 14, 2007

Liberdade


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Olhão
02/06

Friday, May 11, 2007

Observo

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Porto
01/07

Thursday, May 10, 2007

Solidão


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Lisboa 01/07

Wednesday, May 9, 2007

Cheiro de Verão

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Armona 04/07